Belém em festa: a economia lúdica da fé no Círio de Nazaré

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Belém em festa: a economia lúdica da fé no Círio de Nazaré
Lucília da Silva Matos

Esta tese analisa as transformações do processo de longa duração de modernização das práticas de lazer no Círio de Nazaré, com ênfase em aspectos econômicos, políticos e culturais, mormente os sucedidos a partir de 1980, período caracterizado pela intensificação da globalização econômica e técnica e da mundialização da cultura, no qual essas transformações dão à cultura, e mais  especificamente às festas populares, lugar de destaque na dinâmica sociocultural. Ressituadas por novos aparatos técnicos e pela indústria do turismo, essas festas tornaram-se grandes atrativos do mercado de bens e serviços culturais, via de regra, apoiadas pelas instituições estatais (União, estados e municípios) em consonância com agências transnacionais e a iniciativa privada interessadas nos dividendos políticos e econômicos dos negócios que giram em torno da festa e na visibilidade de determinadas cidades. Uma dessas festas é o Círio - manifestação com características próprias do catolicismo popular que acontece desde o século XVIII na cidade de Belém e que passa por um progressivo processo de espetacularização. É visível a intensificação de investimentos no Círio (e sua institucionalização por parte da diretoria da festa, sua principal organizadora, composta por leigos e sacerdotes da igreja) por empresas estatais e privadas, constituindo o que denominamos de economia lúdica da fé. A categoria de análise economia lúdica da fé diz respeito aos processos econômicos de produção, circulação e consumo de produtos, imagens, mensagens e práticas simbólicas presentes no espaço/tempo de alguns eventos populares; estes são dinamizados por práticas culturais em que a fé assume um lugar capital, mediada pelo prazer, pelo encontro, pela diversão. Os mecanismos de ordem econômica, política e cultural, contemporaneamente incorporados ao Círio pelos distintos grupos organizadores (igreja, estado, empresas, produtores culturais, etc.), e aqueles que constituem e/ou ressignificam os símbolos, práticas, espaços e temporalidades são analisados segundo a audiência ativada pela fé conferida à santa padroeira e as possibilidades de vivências lúdicas que se tornam o eixo dinamizador de um processo que mobiliza milhares de pessoas a participarem de inúmeras atividades e consumirem imagens e produtos, gerando o consequente retorno financeiro para os negócios e a recompensa social conquistada pela circulação de outro tipo de moeda: prestígio e reconhecimento dos organizadores, patrocinadores e apoiadores, dos participantes em geral e dos turistas.

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